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Yamaha YF5, 1969 - o início de uma paixão por motocicletas

O amigo Nagib Chaul tinha uma Yamaha YD 250 cc, com guidão alto, e um rádio instalado na barra transversal dele.  Nós fazíamos ponto na Praça do Cruzeiro, próximo ao Colégio Auxiliadora onde nossas amigas estudavam.  Nagib é psicólogo, e seu pai - Sr. Afif - era dono de uma das melhores garagens de carro de Goiânia na época.  Sempre tinha em estoque carrões importados (como as caminonetes Chevrolet El Camino) e algumas motos diferentes, como a Gilera 175 cc - ano 1967 - cor laranja (fabricação argentina) que o Nagib usava em 1969.   Por causa daquela moto, eu passei a balançar minha preferência, que antes era quase que voltada exclusivamente para os carros, agora também para as motos.
Yamaha YDS5 E, ano de fabricação 1967. A moto do meu amigo Nagib era vermelha (metálica), e a sua placa: AA 001. Guidon alto, com rádio instalado.

Yamaha YDS5 E, ano de fabricação 1967. A moto do meu amigo Nagib era vermelha (metálica), e a sua placa: AA 001. Guidon alto, com rádio instalado.

Yamaha YF 5 1969, cinquentinha. Praça do Cruzeiro - Goiânia-GO, em Julho/1970.
 

Meu primeiro "brinquedo" de duas rodas, motorizado é claro !

Yamaha YF5 50cc - ano de fabricação 1969Esta foto (e as duas primeiras da página anterior) são as únicas fotos de época (1970) deste modelo de moto, em movimento, na Internet.

Yamaha YF 5 1969, cinquentinha. Praça do Cruzeiro - Goiânia-GO, em Julho/1970.

A MIL (Mecânica Importadora Limitada) era uma extensão da minha casa: seus proprietários (Erwino Boettcher - o Paulistinha, e Andrea Martelli - o seu André) eram os amigos de toda hora.  Meus saudosos amigos Paulo Boettcher Neto (Paulinho) e o José Luiz Bueno (Zé Luiz) companheiros das viagens para Anápolis - GO, e das idas para o Clube Jaó.  Paulinho com uma Zündapp 50 cc, preta, e o Zé Luiz com uma Yamaha 50cc - série especial que saiu com o tanque branco combinando com partes vermelhas, e guidon plano.  A Zündapp tinha porte e potência de moto maior, muitos a confundiam com uma 125 cc.

Em 1972 mudei-me para Brasília, o amigo Itabyra do Carmo Cunha e sua irmã Bartyra eram os companheiros de apartamento e de inúmeros passeios "exploratórios" por Brasília e região: ele também tinha uma Yamaha cinquentinha (YF5 S - Scrambler - ano de fabricação 1970), e não economizávamos quilometragem em nossos fins de semana.

Perspectiva histórica: Nos anos sessenta e início dos anos setenta Goiânia foi palco de memoráveis competições motociclísticas. Eram comuns as provas de rua onde participavam Lambrettas e motos européias (Ducati, Zundapp, BMW). Tais corridas atraíam pilotos de fora do Estado, principalmente de Uberlândia - MG, e até mesmo de São Paulo. As disputas entre os pilotos da casa e os de fora eram acirradas. Fazendo as honras da casa sempre tínhamos: Erwino Boettcher (o Paulistinha), Edmar Ferreira (o Baixo), Luzio Limongi e outros mais. Com a invasão das motos japonesas a "meninada" começou a também participar de tais eventos: Paulo e Roberto Boettcher, Moacir Horbillon, José Luiz Bueno, Kurt Feichtenberger, Mauro Vieira, Antônio Balduino "Ron-Ron", etc.

Eu me lembro das corridas no centro da cidade (Avenidas Tocantins, Araguaia, Anhanguera e Praça Cívica); na Praça Tamandaré, Av. Assis Chateaubriand e Praça do Cigano; e nos dois anos que precederam a inauguração do Autódromo Internacional de Goiânia tivemos as provas realizadas no Moto Clube de Goiás (cross e velocidade na terra - até mesmo provas de endurance).

No início dos anos setenta, após assistir o filme "Easy Rider" (Sem Destino) com os atores Peter Fonda e Dennis Hopper, resolvi instalar uma barra "Santo Antônio" em minha cinquentinha. Lá fui eu para a oficina do Paulistinha (MIL) falar com seu André. Embora ele relutasse em fazer o serviço para mim, dizendo que não havia utilidade para aquilo, cedeu após muita insistência minha. Assim acabei sendo o primeiro motociclista de Goiânia a ter tal equipamento em sua moto, o que veio se mostrar muito útil nas viagens que empreendi nos anos seguintes.

O seu André era um perfeccionista: exímio torneiro mecânico - produzia qualquer peça no torno, e sabia como ninguém fazer escapamentos de competição. Os escapamentos de competição influem demais no rendimento dos motores. É através deles que tiramos o máximo de rendimento dos motores, principalmente no caso dos motores dois tempos. Ao mesmo tempo em que devem liberar mais facilmente os gases provenientes da combustão, devem assegurar a correta compressão do motor.

Quando fazia os escapamentos para motores 2 tempos, o seu André fabricava uma "chupeta" com ponteira longa, a partir daí ia carburando o motor até o ponto exato da seguinte maneira: ia acelerando a moto e cortando pequenos pedaços da ponteira, mantendo o ouvido atento ao barulho do motor até que após sucessivos cortes chegasse à medida certa da ponteira. No caso dos escapamentos para motores 4 tempos ele fazia alguns cálculos e já fabricava o "bujãozinho" de maneira que o mesmo desse compressão exata, aí era só acertar a mistura (ar/gasolina) no próprio carburador. O piloto que confiasse em sua técnica podia partir para a vitória.

 

Por onde viajamos de moto no Brasil nos últimos 39 anos.

A primeira viagem de cinqüentinha a Brasília - D.F.

O mês de Dezembro chegou rápido. Já não agüentava mais esperar pelas férias de fim-de-ano para fazer a viagem de moto a Brasília. Fui à casa de Moacir Horbillon para confirmar a sua ida comigo. Ele já estava com sua Yamaha SS 50 pronta, faltando apenas alguns detalhes como lubrificação da corrente e limpeza da vela de ignição.

No dia 26 de Dezembro de 1970 partimos os dois, eu e o Moacyr rumo à Brasília. Ficou combinado que ficaríamos hospedados na casa de minha tia Amarilys (tia Diginha). Meus primos Luís Antônio (Luisão) e Márcio estavam viajando para Belo Horizonte, e nós ocuparíamos o seu confortável quarto no grande apartamento da SQS 114 - quadra dos funcionários do Banco do Brasil.

Chegamos à tarde, após uma viagem tranqüila sem peripécias. Nos 212 km da estrada que liga Goiânia a Brasília, ficamos nos revezando na "liderança" da viagem. Éramos dois jovens em suas cinqüentinhas reluzentes, cheios de disposição para aventuras, em sua primeira viagem interestadual (de Goiás para o Distrito Federal). Entusiasmo era o que não faltava!

Logo após nos alojarmos fomos à casa do amigo Léo (Evandro Leuman Faleiro), eu o apresentei ao Moacir, bem como seu irmão Gérson, sua irmã (a memória me traiu agora quanto ao seu nome). Logo combinamos uma ida à noite na Drugstore (boate da moda na época, localizada no Centro Comercial Gilberto Salomão, Lago Sul). No horário combinado lá fomos nós nas motos até a casa do Léo e, depois, numa Kombi e no Opala Gran Luxo 3.800cc (6 cilindros, azul escuro metálico com duas faixas cor laranja no capô) até o Gilberto Salomão. Tudo era festa.

O Léo foi meu colega no curso primário do Grupo Escolar Modelo, quando ele ainda morava em Goiânia - GO na Rua 104 do Setor Sul (no início dos anos 1960).  Eu morava na Rua 105, naqueles tempos pioneiros do Setor Sul quando as ruas nem haviam sido asfaltadas ainda, onde nós andávamos de bicicleta.

Nos outros dias visitamos mais amigos, o Culé (Luiz André Reis) e sua irmã Bia. O Moacir logo se sentiu em casa. Na realidade o bom mesmo era estarmos rodando por Brasília com nossas motos, e desfrutarmos de todo o assédio dos amigos com as novidades que eram nossas pequenas cinqüentinhas, naquela Brasília pioneira do início dos anos setenta.

No dia anterior ao nosso retorno a Goiânia, resolvi ir na Camber (oficina Volkswagen e Yamaha) para dar uma descarbonizada no escapamento de minha moto. O Pedrão fez um ótimo serviço, completado com uma limpeza da vela de ignição e regulagem do Autolube. Minha moto ficou andando quase junto com a SS do Moacir - uma raríssima Yamaha SS (FS1), 50cc, cinco marchas, ano de fabricação 1970.

Chegara a hora de voltar para casa, motos na estrada, estrada vazia às vésperas do ano novo no finalzinho de Dez/70. Na saída de Taguatinga - D.F. um grupo de jovens como nós, com roupas e cabelos que hoje nos enquadrariam como hippies vibraram com nossa passagem. Eles estavam caminhando pela estrada, e ao nos verem acenaram muito e vibraram com os dois "easy riders" voando baixo nas cinqüentinhas. No meio deles estava o Marcão (Marcos Nascimento), com sua cabeleira já bem conhecida na 114 Sul e no Gilberto Salomão.

Cumpridos 1/3 do percurso a moto do Moacir começou a apresentar problemas de ignição, perdia velocidade nas subidas, não conseguia de forma alguma me acompanhar na minha YF5, que com apenas quatro marchas estava chegando aos 80/85 km/h nas descidas. Eu vibrava muito com o desempenho mas, ao mesmo tempo, me preocupava com a moto do Moacir. Mais alguns quilômetros rodados e a moto dele deu pane geral - nada de funcionar de novo. Não resolveu nem mesmo a providencial limpeza do eletrodo da vela de ignição, que era o remédio universal para os motores dois tempos naquela época.

A tarde foi se aproximando e com ela uma bela tempestade de verão. Daquelas de nuvens densas, como bolas de algodão, só que coloridas de negro. Na estrada não podíamos ficar, ali no meio do nada. De repente passa um Karmann Ghia branco, com um ronco bonito de um Kadron muito bem dimensionado. Era o amigo Salvino Pires Sobrinho (o Vininho) da turma da Pirikota (Setor Oeste em Goiânia - GO). Com seu bom humor e companheirismo tentou de tudo, até mesmo colocar a SS 50 dentro do Karmann Ghia, mas não havia como fazer isto. Sugerimos que ele seguisse em sua viagem para Brasília, pois nós nos viraríamos de uma maneira ou de outra.

Aí eu tive uma "brilhante" idéia: tiramos as nossas toalhas de banho das mochilas, amarramos uma à outra, e eu passei a rebocar o Moacir. Estávamos perto de Anápolis - GO, o destino era nossa casa em Goiânia - GO, e a pressa se fazia necessária face ao temporal de verão que se aproximava.

Ao chegarmos no Posto da Polícia Rodoviária Federal em Anápolis, fomos parados e o Patrulheiro nos disse que não podíamos continuar viajando daquela forma pois já era quase noite. Mas ele nos ofereceu para ficarmos lá se quiséssemos, e ainda se pôs a ajudar-nos a encontrar um veículo que se dispusesse a levar o Moacir e sua moto até Goiânia. A seguir parou uma Kombi que ia a Brasília, seu motorista disse que retornaria naquele mesmo dia, e prometeu ao Moacir que o apanharia na volta, e o levaria com sua moto até Goiânia.

Vendo que estava tudo tranquilo, eu decidi então continuar até Goiânia, que se situava a uns 60 km de onde estávamos. Naquela noite a cinqüentinha enfrentou o maior temporal de sua história. Mas valentemente me levou de volta para casa, onde após um demorado banho quente fui dormir. Cansado mas com a deliciosa sensação de haver realizado a minha primeira "grande" aventura sobre duas rodas.

Inesquecível!